
Foi bem longe, lá na terra de ninguém, onde acordei. Abri as cortinas que tapavam minha janela invisível, e respirei do ar que me faz bem: aquele que é de ninguém. E naquele amanhecer de Verão, só eu senti o vento que me tocava na cara, ali bem perto do nada onde despertei.
No meu quarto nada havia! Nem cadeira, nem cama… nada do que devia! Atordoado por isso verificar, senti-me roubado pelo ar que me envolvia. Então saí daquele quarto e bati com a porta que não se via. Bati e segui o rasto desse ladrão. Procurei nos recantos das imagens que os meus olhos viam, fui e voltei da linha do horizonte… nada! Só o verde feno e o azul de um céu distante o denunciavam.
Parei então e olhei para um pedaço de chão. Sentei-me. Deitei-me… Reparei nas nuvens que lá iam ao longe. E empurrando uma delas, lá ia o meu ladrão! Vi as minhas coisas na sua bolsa. Vi o quarto onde vivi, a cama onde dormi! Levantei-me e corri. Mas não o alcançava! Então subi aquela árvore que só se mostrava para mim. E fui alto, tão alto! E lá no cimo, bem lá no cimo, alcancei esse ladrão!
Então o ar que me roubara, ao vêr furiosa a minha cara, abriu a sua bolsa, e oh… lá no meu quarto, na minha cama, era eu que lá estava! E olhei para baixo, bem lá em baixo, vi as paredes do meu quarto e a cama onde acordara! Percebi então que era tudo feito de ar, do mesmo me que roubara… Daí a beleza daquele lugar! Então o ar à minha volta desfez-se da bolsa que eu via, e tudo o que me roubara, desaparecia! E de um momento para o outro, estava no local onde acordara!
E então, nessa terra de ninguém, voltei ao sonho que me adormecia…