Archive for Outubro, 2008

Beijo.

No quarto segurou o livro. Deu dois passos, sentou-se na cama e puxando a almofada, abriu numa página marcada.

– Sabes se é hoje que almoço contigo? – perguntou, depois de se encostar.

– Não faço ideia. – respondeu. – Estava a pensar trocar o almoço de hoje por uma reunião na obra. Talvez adiante trabalho…

Puxou do cigarro e acendeu-o. Português. Deu um bafo inspirado na magia da nicotina e deixou os olhos cairem sobre o livro. De fora, só a mão direita animava o corpo vazio.

– Nunca pensaste beijar-me?

– Talvez… porquê? – perguntou surpreendido, olhando para dentro.

– Não sei, às vezes penso que me desejas. Que tens na pele um aroma a pimenta e na boca chocolate. Que me deixas provar essa mistura de sabores e me fazes dissolver sentimentos… mas há…

– Sim?

– …há dias em que és água.

Mexeu os dedos até chocarem no cabelo, e devagar, foi entrando no quarto. Os sapatos tocavam levemente o soalho até pararem para se sentar ao lado dela. Com a mão esquerda tirou-lhe o cigarro, e enquanto ainda inspirava o sabor da rotina, fechou-lhe o livro e disse devagar:

– Nesses dias, quero que te envolvas em mim: água, pimenta e chocolate.

– Não entendo. A que sabe? A revolta ou a indefinido?! A que sabe o indefinido? A suave ou a rocha? Conta-me…

Levantou-se. Dirigiu-se até ao espelho que tinha aquela imagem de si. Ouviu as molas do colchão soltarem um “até já”, e atrás de si, ela. Pegou-lhe no braço enquanto gesticulava. Os perfumes tombavam com a raiva. Queria entender a passividade do homem que amava, mas ele deambulava entre o vazio e o nada.

– Eu não sei… talvez se quissesses entrar em mim, dissolver-te no meu mundo. Quem sabe! A loucura e a paixão não tivessem contextos e apenas se amassem. O picante do sagrado que trazes na pele me fizesse voar… Mas preferes amar não é? És tão mais radical que me deixas de mãos atadas!

– E que preferes? Que esteja calada?! Estou farta das tuas teorias estúpidas! Porque não me tocas como dantes?…

Na raiva, caíu o livro que segurava sobre o filtro amarelo. A cinza que sobrava deixou-se abraçar pelo peso do não lido. “Talvez se…”, ouvi-se. E nada mais certo. Apenas o sabor a chocolate.

Outubro 30, 2008 at 11:54 pm 4 comentários

Carvão da tua cor.

É mais um jogo de crenças e sentidos despropositados: o quotidiano que levamos é cada vez mais levado por uma simples vida de acessórios estupidamente sem sentido. Ao que parece, damos mais valor ao pequeno do que àquilo que é grande e se encontra ao alcance dos nossos olhos, e basta ficares atento para entenderes aquilo que te vou dizendo. Sabes…

…há poetas que escrevem com caneta, com alma codificada, talvez encriptada, para que ao seu coração ninguém bata. Quem sabe até se não de forma barata, das entrelinhas à errata, escrevam versos sobre estrelas e sonhos, para que quando nossos olhos neles pomos, nos afastem dos corações em que habitam. Estranhos e eternos ermitas, que com palavras encantados ficam, nesta terra de ilusões, dicções, e coisas ditas. Então desejam a vida que eu vi, e a que fiz, apenas porque meus versos os escrevi do colorido cinzento de um lápis.

Pinta a cor da tua vida, e aprende com o lápis que dela pintas…

Outubro 20, 2008 at 12:21 pm 2 comentários


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